As horas de uma vida difcil

As horas de uma vida difícil

Ela sai apressada de casa, vestida com um casaco pesado demais para a época do ano. Estamos em 1941. Há uma outra guerra em andamento. Deixou um bilhete para Leonard, outro para Vanessa. Caminha decidida em direção ao rio, certa daquilo que fará, mas mesmo assim um tanto distraída, observando as colinas, a igreja e um grupo de carneiros, incandescentes, matizados por um vago tom cor de enxofre, que pastam sob o céu enfarruscado. Pára, vendo os carneiros e o céu, depois retoma o caminho. As vozes murmuram atrás dela; bombardeiros zumbem no alto, ainda que procure os aviões e não os veja. Passa por um dos empregados da fazenda (seria John, o seu nome?), um homem robusto, de cabeça pequena, que usa uma camisa cor de batata e limpa um rego entre os chorões. Ele ergue os olhos para ela, faz um gesto de cabeça, baixa a vista de novo para a água pardacenta. Ao cruzar com ele, a caminho do rio, pensa em como é bem sucedido, no quanto é feliz em limpar um rego entre os chorões. Ela mesma fracassou. Não é escritora coisa nenhuma, não de verdade; é apenas uma excêntrica bem-dotada. Pedaços de céu brilham nas poças deixadas pela chuva da noite anterior. Seus sapatos afundam ligeiramente na terra fofa. Ela fracassou, e agora as vozes voltaram, resmungando de modo indistinto bem atrás de seu campo de visão, atrás dela, aqui, não, basta virar que elas somem e vão para outro canto. As vozes estão de volta e a dor de cabeça se aproxima, tão certa quanto a chuva, a dor de cabeça que vai esmagar seja lá o que ela for e tomar o seu lugar.A dor de cabeça aproxima-se e parece que os bombardeiros (esta ou não invocando todos eles, ela mesma?) sugiram de novo no céu [...].


Queridíssimo,
Tenho certeza que estou ficando louca outra vez; sinto que não podemos passar por mais uma dessas temporadas terríveis.
E desta vez eu não vou me recuperar. Começo a ouvir vozes e não consigo me concentrar.
Por isso estou fazendo o que parece ser o melhor a fazer. Você me deu toda felicidade que eu poderia ter. Você tem sido, sob todos os aspectos, tudo que alguém podia ser. Não creio que pudesse haver no mundo duas pessoas mais felizes, até que veio essa doença terrível. Não posso mais combatê-la, sei que estou estragando sua vida, que sem mim você poderia trabalhar. E vai, eu sei.
Você vê que nem estou conseguindo escrever isso direito. Eu não consigo ler. O que quero dizer é que devo toda a felicidade que tive na vida a você.
Você foi imensamente paciente comigo e tremendamente bom. Eu quero dizer isso ¿ e todo mundo sabe. Se alguém pudesse ter nos salvado, esse alguém teria sido você.
Tudo o que eu tinha se foi, exceto a certeza da sua bondade. Eu não posso continuar estragando sua vida. Não creio que duas pessoas poderiam ter sido mais felizes do que nós fomos.
V.



[...]Rápida, a corrente leva. Ela parece estar voando, uma figura fantástica, os cabelos soltos, a aba do casaco enfunada atrás. Flutua, pesada, por entes hastes de luz marrom, granular. Não vai muito longe. Seus pés (os sapatos se foram) batem de vez em quando no fundo e, quando o fazem, convocam uma nuvem indolente de sujeira, povoada por silhuetas negras de esqueletos de folhas que param quase imóveis na água, depois que ela some de vista. Fiapos de mato de um verde quase negro enroscam em seu cabelo e no pêlo do casaco e, por instantes, um chumaço grosso de capim lhe tampam os olhos, depois acaba se soltando e sai flutuando, torcendo-se, destorcendo-se, e retorcendo-se.[...]
ivna: 01/13/2005 9:15 PM
Debbs: 01/15/2005 5:37 AM
Flor: 01/19/2005 9:13 AM
You oughta know: 01/23/2005 8:48 PM
Só se der!!!!!: 01/25/2005 11:54 AM
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